MOEMA

MOEMA
PAPIRUS DO EGITO

terça-feira, 19 de março de 2013

FESTA DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA EM PINHEIRO

 
 

 


 
”As pessoas que eu nomeio são pessoas que existem, os fatos que estou contando vossa memória esqueceu”. Jorge de Lima

II PARTE – O Largo ou Arraial

Durante o ano tínhamos muitas festas religiosas, resquícios da resistência das camadas populares no âmbito das crenças religiosas, às vésperas das grandes mudanças sociais que se processariam no mundo, a partir da segunda metade do século XX, com reflexos nas práticas sociais e no cotidiano da vida comunitária de uma pequena cidade em formação, onde se travava uma luta surda entre a cultura letrada dos padres italianos pertencentes à Ordem Missionários do Sagrado Coração, chegados em Pinheiro em 1946, e a cultura popular, cujas manifestações privilegiavam a religiosidade herdada dos primeiros moradores. Os padres começaram a desagradar a população quando extinguiram os festejos de São Benedito, comemorados na Matriz durante o Natal, transferindo-os para outro local e data, passando, a partir daí a realizar-se a Bênção do Santíssimo. Depois a retirada dos santos do altar-mor, substituindo-os por uma cruz, abolição de algumas manifestações como as ladainhas, ritos como o dobre do sino quando algum morador falecia e outras pequenas mudanças que não estavam agradando a população. Para evitar maiores animosidades os padres mantiveram a Festa do Divino, os Pastorais. Também foram mantidos os festejos de São Sebastião no dia 20 de janeiro, o mês Mariano com a coroação de Nossa Senhora no dia 31 de Maio, as festa do Padroeiro em 31 de julho e a de São Raimundo em 31 de  agosto. As festividades em homenagem a São Benedito foram transferidas para uma igrejinha reconstruída na antiga Praça da República, atualmente Praça de São Benedito, onde os fiéis podiam, sem a censura dos padres, curtir o tambor de crioula.
Porém a festa mais aguardada por toda a população era a de Santo Inácio, Padroeiro da cidade que se realizava no dia 31 de julho, dia em que o jesuíta faleceu em 1556, com 65 anos de idade.
No ano de 1958 a festa fora planejada com muita antecedência, elegendo-se a Comissão Organizadora da Festa,presidida por Orzete Amorim, subdividida em várias outras: uma encarregada de arrecadar fundos para os festejos  era formada por moças e senhoras que sairam nas ruas, pedindo no comércio, dinheiro e prendas para o leilão. Antigamente era acompanhada por alguns músicos e anunciada pelo pipocar dos foguetes. Durante nove dias foram rezadas ladainhas na Igreja, sendo que cada noite fora de responsabilidade de uma classe trabalhadora ou Associação Religiosa: comerciantes, comerciários, pecuaristas, agricultores, barqueiros, pescadores, associados do Círculo Operário, funcionários públicos e das associações religiosas: Vicentinos, Filhas de Maria, Zeladoras do Sagrado Coração e até dos estudantes. Cada uma dessas classes esmeraram-se em tornar a sua noite a mais festiva, animada e rendosa. Os objetos mais valiosos foram destinados a rifas que “corriam” na noite da novena da comissão que os ganhara. O largo fora  decorado com bandeirinhas e argolas de papel de seda e arcos de pindoba. Nos dois lados da igreja, Dedeco Mendes e Orzete Amorim construiram os seus botequins com bebidas geladas, quentes e tira-gostos. Em frente a essas estruturas com paredes e coberturas de palha, montaram mesas e cadeiras dobráveis para os freqüentadores. Os mais assíduos eram Nadico, Gomes, Leopoldo, Santinho, Josué Azevedo, Edmilson, Mário Castro, Ubaldino e Zé Pessoa, Zezinho, Joacy, Gregório, Alberto,e Claudionor, Rafael Soares,
 
João Castelo, Zé Veloso que geralmente ficavam no Dedeco, enquanto o pessoal do bairro da Matriz, Baril, Esmeraldo, Dico Aroucha, Floriano, os irmãos Congo e Inácio Sá, Inácio Ribeiro, Wilson Peixoto, Zé Peixoto que não perdia uma só festa de Santo Inácio, preferiam ser atendidos por Adalberto Amorim que dava uma mãozinha para o irmão. Nessas noites promoveram-se pequenos leilões, queimaram-se foguetes, instalando-se um serviço de alto-falante comandado por Hildebrando Reis com as indefectíveis mensagens  ("de alguém para alguém
com muito amor") e os inesquecíveis programas de calouros. Aymoré, Inacinho Castro, Glorinha Aroucha foram grandes atrações, cantando El reloj, Oh! sol e Banho de lua, respectivamente. Até Niedja, Edméa e eu, organizamos um trio e cantamos nesse ano.A música ensaiada várias vezes não dera certa e nós cantamos, em separado, outras músicas: Contigo en la distancia, Suave é a noite e eu cantei de costas para a platéia Ouça de Maysa.Entre 21:00h e 21:30h, os jovens e senhoras voltavam pra suas casas, enquanto os homens permaneciam nos botequins para a “saideira”.
Entretanto, o auge da festa fora a noite do dia 31, após a procissão. A cidade toda era uma explosão de animação e alegria que se irradiavam do Largo e se refletiam no semblante dos pinheirenses e visitantes de outras plagas. Já a postos, as doceiras com seus tabuleiros de doces e outros quitutes: as mais antigas com o seu ponto cativo, trouxeram de casa uma mesinha onde expuseram as guloseimas e sentadas num banquinho atendiam os compradores. As mais novas circulavam pelo largo com o tabuleiro na cabeça e um tamborete na mão, usado na hora da venda. As mais afamadas eram: d. Emília, as Amorim, Virgínia Sessenta e umas senhoras pretas, altas, do bairro do Sete que vendiam inigualáveis corações recheados com doce de coco. As guloseimas vendidas pelas demais doceiras eram: não-me-toque, suspiros, mães-bentas, papos de anjos, pastilhas feitas com essência de hortelã e de rosas, pedaços de bolo de tapioca, de macaxeira e outros sequilhos.
Para as crianças foram armadas barracas de pescarias de pequenas prendas e outros folguedos. Também foram vendidos balões de cores, tamanhos e feitios variados.
Às 20:00h começou o footing: os rapazes parados, geralmente em pequenos grupos e as moças, de braços dados pra lá e pra cá, olhando por baixo da sobrancelha, de esguelha, na esperança de serem notadas pelo eleito e a partir daí engatar um namoro. Não se chamava “paquera”e sim flerte. Nos poucos bancos de cimento disponíveis ficaram os casais de namorados: Zé Soares e Gilma, Edmir e Darly, Raimundinho e Maria Célia, Teixeira e Helena, José João e Reginalda, Lauro e Dijica, Nair Amate e Bentinho. Dividindo o mesmo banco, ficavam dois casais de costas um para o outro.
E o burburinho aumentara quando às 21:00h, seu Severino ajudado por Sapo-Sunga, soltou o esperado balão, confeccionado em segredo para maior surpresa, e maior suspense, causando grande alarido da garotada Em seguida acendeu uma girândola de foguetes de lágrimas para admiração de todos nós.
Essa fora a senha para começar o grande leilão. Protegido por um alambrado de madeira, Carrinho Pereira começou a leiloar as prendas, distribuidas numa mesa improvisada com tábuas sobre cavaletes: pães-de-ló, bolos de tapioca, trigo e macaxeira, galinhas e capões recheadas, patos vivos, cachos de banana, compoteiras de doces: ”Quem dá mais”? “Quem dá mais”? apregoava o leiloeiro até que alguém fizesse um lance maior; aí o grito era outro: “a fonte entrega a fulano”. Na hora do leilão do boizinho aproximaram-se os pecuaristas: Zé Grande, Zelico, Pantim, Gigi, João Ramalho, Raimundo Rodrigues, Pedro Almeida, Dico Araujo; a disputa fora acirrada com lances cada vez mais altos, para impressionar os presentes, ajudar a Matriz e AD MAIOREM DEI GLORIAM.
Às 22:00h o Arraial esfriara e as pessoas foram saindo para os bailes, extensão pagã da Festa de Santo Inácio. Algumas foram para a casa de Luiz de Dondona Soares, na Rua Benjamin Constant, outros para as festas de segunda, realizadas em bairros mais distantes. A elite social foi para casa aprontar-se para o baile no Cassino Pinheirense. O presidente do clube, Nezinho Soares, trouxe nesse ano um cantor maranhense que anos depois se tornaria coqueluche nacional: Roberto Muller,o “Pingo de Ouro”, hospedado em nossa casa, pois o meu padrasto Abílio, grande amigo de Nezinho não lhe negara o pedido.
Eram poucos os veículos na cidade, além de uma lambreta e um jipe dos padres, circulavam por nossas ruas empiçarradas e esburacadas os jipes de Américo Gonçalves, Dico Araujo e Zé Santos. João Moreira e Artuzinho comprariam seus veículos anos depois. Fomos mesmo a pé, pois usávamos ainda sapatos baixos. O sapateiro Elisabeto Costa, recém-chegado do Rio, onde aprendera com o seu conterrâneo Rubens Corrêa a fazer sapatos de salto Luis XV, não chegara para as encomendas.
Em casa trocamos mais uma vez de roupa, pusemos um pouco de ruge, batom e perfume, indo com os nossos familiares para o Clube, a estas horas já com as mesas de pista totalmente ocupadas. No palco a orquestra dos Soares tocava sambas, boleros, baladas dolentes, às vezes, a pedidos, um fox ou um samba-canção. No fim do baile, tocaram marchinhas para animar o ambiente. Os garçons prestimosos iam de mesa em mesa, servindo refrigerantes, cervejas e pastéis, como tira-gosto.
As mesas foram ocupadas pelos casais e seus familiares: os irmãos Zé Maria, Raimundo e Américo, dr. Estrela, Goulart, dr. Arruda numa grande e animada mesa. Henrique Schalcher, Ubaldo Pimenta, Deusdeti, com as suas esposas, formavam outra mesa. Zé Santos, Ulisses Durans, Rui Marques, Wilson Marinho, Odilon Soares, Edgar Cordeiro com as respectivas esposas e filhas. Orlico Soares, Dedeco Mendes, Cravinato Nogueira, Cosme Duarte, Algenir Aguiar, Marinheiro e o seu irmão Zé Pedro, João Campos, Pedro Almeida, Didi Soares, Edésio Castro, os irmão Paiva, Maneco, Afonso e Luis, também o Cel Paiva, Ribamar Ferreira, Gregório, Claudionor e Alberto Corrêa, seu Edésio Alves, Dico Aroucha, Chiquinho de Gino, Antônio Trindade, Ernildo e os irmãos Lourival, Chiquinho e dr. Zequinha Gomes, Tarquínio Sousa, Abílio Loureiro, Juarez Leite, Ozório Abreu estes só com as respectivas esposas e claro, Nezinho, presidente do clube a e sua consorte.
No salão já dançavam: Haydée e Hibinho, Artuzinho e Socorro Jinkings, Ísis e Byron, Júlio César e Anaclan, Nelcy Moraes e João de Deus, Edmilson e Maria Lúcia, José Soares e Gilma, Edmir Beckman e Darly, ZéMaria Santos e Niedja, Remi Trinta e Maria Alice, Maria Helena Castro e Eldonor, Lauro Mineiro e Dijica, Zete e Leopoldo, Lurdinha e Fradique, Erasmo e Marilene, Raimundinho e Maria Célia, Flora e Santinho, Ernaldo Peixoto e Cocota, Aymoré e Delfina, Edméa e Reginaldo, Zé Anastácio e Laurení, Sofia e Zé Pinheiro, Marbene e Orlandinho, Ana Fausta e Tote Leite, Gilberto e Maria Isaura, Zé Roberto e Aparecida, Zuza e Maria de Lurdes Pimenta, Elce e Levi Leite, Valdecí e Antenor, Celeste Guterres e Luiz Paiva, Gatinho e Niédice, Edilson Peixoto e Socorro Castro, Ribamar Martins e Cristina Rocha, Raimundo Estrela e Helinice e outros casais de namorados.
Sem par, aguardando o convite para a dança: Cindoquinha, Glorinha Aroucha e sua irmã Concita, Dilucinda Castro, Lucinda e Alcinda Ferreira, Bibi Moraes, Flory, Maria de Jesus Nogueira, Maria
Helena Soares, Deny, Teresinha e Dilma, Gracinha Marques, Maria Lúcia Cerveira, Lurdinha Soares, Maria Pereira, Ericine Moreira, Lenir Dias, Alcinda Soares e duas primas, Vitorinha, Lucenir, Selmita Melo, Dezinha Peixoto, Socorro Marques e eu. Os rapazes, fazendo-se de rogado, esperavam o momento certo para o almejado convite: Jurandy e Leitinho, Danilo Durans, Lauro Reis, William Pinheiro, José Reinaldo, José Isaias, José Roberto e seu irmão Inácio, Roberval Melo, Tinche, Florêncio, Capitão Leite, Edmar e Ary Abreu, Tuzinho e Zé Carlos Rodrigues, Afonso Guimarães, Gladston, Alexandre Botão, Catí, Alaôr Mota, Palmerinho, Aquiles, Rufino, os irmãos Juca e Rui Cordeiro e outros que o tempo me fez esquecer.
Às 23:00h, após o intervalo, a atração trazida nesse ano, Roberto Muller começou com o seu repertório de boleros e baladas: Beija-me muito, Castiga-me, Lembranças, Nunca mais brigarei contigo e Vai saudade, foram as mais aplaudidas. Os jovens sentaram e os senhores com suas esposas foram dançar, destacando-se como pés-de-valsa: Abílio e Inez, Cravinato e Olegária, Ubaldo e Gracinha, Ribamar e Mundoca, Artuzinho e Haydée.
O sinal de que o baile estava prestes a acabar fora dado pela orquestra que começou a tocar marchinhas de velhos carnavais. Às 2:00 h. em ponto a orquestra emudeceu, os homens acertaram as contas com os garçons, reuniram seus familiares, principalmente as filhas, pois nessa época não era permitido aos rapazes levarem suas namoradas em casa.
Após as despedidas entre os amigos que ficavam e os que iriam viajar para São Luis, com promessas de cartas, pois ainda não havia serviço de telefone, todos voltaram felizes e nostálgicos para as suas casas. As viagens seriam de barco, incômodas, demoradas, pois apenas os mais abonados viajavam de taxi-aéreo e mesmo assim por problemas de saúde.
Adeus, amigos! Viva Pinheiro! Salve Santo Inácio! Até o próximo ano!
OBS.: Como justificativa pelas indiscrições cometidas, mencionando casais de namorados, cujos romances foram desfeitos, invoco em meu favor, esta citação de Pablo Neruda: “Nosotros, los de entonces ya no somos los mismos”.
Era nosso desejo apresentar numa só tela panorâmica, um dos aspectos da cidade de Pinheiro em fins da década de 1950, em plena fase dos Anos Dourados, que refletisse o clima de efervescência cultural e expectativas que vivíamos na mocidade, às vésperas de concluir o Ginásio e deixar as plagas nativas. Gostaríamos de distribuir no cenário todas as pessoas conhecidas, com papel maior ou menor, importantes e não, mas todas inesquecíveis, movimentando-se no mesmo espaço cênico, ligadas aos mesmos interesses, ajudando a tecer a história social da nossa cidade.
Evocar é um ato posterior ao vivido e leva-nos a incorrer em erros e omissões. Espero não ter causado embaraços e constrangimentos, até mesmo recordações dolorosas. Apesar de ter excelente memória, seria impossível lembrar-me de todos, amigos ou simples conhecidos, 55 anos depois    
 desses acontecimentos. Muitas pessoas ainda estão vivas, e por certo conservam em sua memória as lembranças das festas das quais participaram e que foram por mim evocadas; outras devem ter ouvido dos seus pais e avós; outras, infelizmente, já dormem o sono da eternidade.
Concluindo, apelo novamente a Dostoievski: “limito-me a narrar os fatos tais como se produziram, tão exatamente quanto me foi possível, e, se parecerem inverossímeis, a culpa não é minha”.
.



 

domingo, 17 de março de 2013

A FESTA DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA EM PINHEIRO



                                                         * Moema de Castro Alvim

“A verdade verdadeira é sempre inverossímil. Para tornar a verdade verossímil é preciso acrescentar-lhe um pouco de fantasia. É o que os homens sempre fizeram”. Fiodor Mikhailovitc Dostoievski

                                              PARTE I
                          A MISSA E A PROCISSÃO
31 de julho de 1958.  Aproveito para dar uma descansada depois do almoço onde foram servidos arroz de forno e farofa, acompanhando galinha ao molho pardo, pernil assado e torta de miúdos de galinha, rematando com a sobremesa constituída por queijo de São Bento e goiabada.  A manhã fora cheia de emoções, quando, com o vestido novo costurado por Camélia fui à missa das 9:00h com as amigas Niedja, Almerinda e Edméa. Missa cantada em latim e a pedido do maestro Giovanni Pelela, então seminarista, solei o Benedictus. A igreja regurgitava de gente e o meu nervosismo fora acentuado pelo cheiro acre do ambiente que rescendia a incenso, misturado ao cheiro da estearina das velas e das flores.
Maria Alice, Delfina, Terezinha Durans, Almerinda, Inácia e Terezinha Lima, Marlinda, Maria Teresa, Flory, Isabel Corrêa, Mª Helena Castro, Niedja, Edméa e eu, estreantes no coro, ao lado das tarimbadas cantoras Maria Costa, Marica e Ana Tereza, Dilu, Cici e Nenem Amorim, Regina Durans, Lisete Beckman, Juracy Correa, Odalva e as irmãs Bezerra; não fizemos feio, pois apesar da grande experiência das veteranas, sabíamos pronunciar melhor as palavras aprendidas nas aulas de latim com  Pe. Sandro e de música com Frei José.
Entre as Missas das 8:00h e a solene das 9:00h, eram ministrados os sacramentos do Batismo e da Crisma e eram feitas, também, as Consagrações, por causa da gritaria da gurizada na hora da imersão da cabeça na pia de água benta.
Após a Missa passamos pelo Cassino onde jogamos pingue-pongue, dama, dominó e os rapazes exibiram suas tacadas no bilhar.
Enquanto isso, na Rua Grande os cavaleiros davam um show de destreza: Artuzinho, Lauro Mineiro, Carimbo, ZéJoão e João de Deus, foram os que mais se destacaram.
À tarde com os pés doloridos e cheios de calos causados pelos sapatos novos confeccionados pelo sapateiro José Pedro Amengol, decidi não acompanhar a procissão com a imagem de Santo Inácio. Esperaria na porta de casa a passagem do cortejo.
Entretanto, às 16:00h, ao ouvir o pipocar dos foguetes não pude conter a ansiedade. Pus outro vestido, feito especialmente para a ocasião, calcei sapatos amaciados pelo uso e fui aguardar a passagem do santo no canto de D. Evarinta, mãe de Pe. Newton, falecido há poucos anos. Várias pessoas já estavam estrategicamente postadas, algumas sentadas na base do obelisco, outras na calçada de João Ubaldo, dentre as quais Zeca Guterres, General, Godi, Zelico, Zé Diniz, Francinê, Edésio Castro, Didi e Dedeco Soares, Nhô Baralho, Doutor de Memeco, Zé Maria de Camilo, Ubaldo Pimenta, Cloves e Enoque Moraes, seu Onofre, Ataliba, Malaquias, seu Atanásio, Parmenas Diniz e outros. De lá se ouvia o coro das vozes masculinas graves entremeadas com as agudas femininas entoando “Queremos Deus, homens ingratos”, passando já pela Cadeia Pública onde os presidiários esticavam o pescoço para tentar ver alguma coisa, pelas casas de Rubico, d. Dulce, Chico Silva d. Tatá, Dedeco Mendes, Orlico Soares, d. Faninha Veloso, Levino Reis, seu Isidoro, Benício Pessoa, Mundica Cerveira, na Rua Diogo dos Reis.
 Seu Juca, portava solenemente o crucifixo à frente das duas alas formadas por crianças, organizadas por Zé Pereira e Juracy Correa, seguidas pelos jovens e adultos, pelas moças e senhoras, geralmente com a cabeça coberta por véu, terço na mão, ora cantando acompanhando Frei José, ora rezando o terço puxado pelo vigário Pe. Fernando Meloselli. No meio, as crianças orientadas por Lenir Soares, envergavam orgulhosamente as vestes de anjo nas cores branco, azul e rosa, com suas asas enfeitadas com arminho, e grinaldas de flores delicadas e salpicadas de orvalho feitas por Raquel Lima.  Seguiam-nas as Irmandades das Goretti formada por adolescentes com as suas fitas amarelas, os Cruzados com suas faixas pretas, bordadas com a cruz, as moças Filhas de Maria, vestidas de branco com suas fitas azuis e as senhoras comandadas por Doninha Pereira e Mundiquinha Durans, todas de branco, com as fitas vermelhas Zeladoras do Sagrado Coração. Fechando esse contingente central os senhores pertencentes à Congregação Vicentina, tendo à frente Zé Mota e Zé Augusto Lopes, Antonio Mota,Ubaldino Luz, seu Malta, Zorobabel, Severino Silva, os irmãos Cardoso, Napoleão, Mário e Agostinho, Sabino, Orzete e outros.
Finalmente, o andor ricamente ornamentado com flores de papel confeccionadas primorosamente por Zunga. A imagem, em tamanho natural, com as vestes pretas características dos jesuítas, fora trazida de São Luiz, em 1949, talvez da Igreja de São Pantaleão, pelo Pe. Newton. Carregando o andor revezavam-se dezenas de senhores, contritos, ciosos da sua responsabilidade de acompanhar o santo Padroeiro pelas ruas da cidade. Em vida, Inácio de Loyola, fidalgo nascido na Espanha com o nome de Iñigo Lopez de Loyola, fora soldado que nunca fugira ao bom combate para divulgar a palavra de Deus, fundando para essa missão, a Companhia de Jesus cujos membros conhecidos por Jesuitas, espalharam-se catequizando e pregando o Evangelho em quase todos os continentes.






Todos os homens válidos da cidade, geralmente identificados com a trajetória de vida do santo guerreiro, vindos dos diversos bairros (Faveira, Matriz, Baixinha, Matadouro, Centro, Aeroporto,Campinho, Sete, Alcântara, Enseada) dos povoados próximos, principalmente de Pacas, Pimenta, Gama, Ponta de Santana, Bom Viver, Ponta Branca, São Luis, Engenho Queimado e até dos municípios vizinhos vieram prestar-lhes suas homenagens. Lembro-me de Antônio Durans, Henrique Schalcher, seu Gentil Frazão, Cravinato Nogueira, Cosme Duarte, Urbano, Mestre Jambo, Floriano Beckman, Sabino, os irmãos Corrêa Gregório, Alberto, Claudionor e Raimundo Socó, Chiquinho, Lourival e Ernildo Gomes, Manoel Jansen, Antônio Trindade, Gatinho, Maramaldo, Edmilson Cordeiro, Pacheco, João Campos, Pedro Almeida, Dr. Arruda, Dr. Guerreiro, os irmãos Gonçalves Zé Maria, Raimundo e Américo, os Paiva, Maneco, Afonso e Luiz, Antonio Carlos Guterres, Abílio Loureiro, Pedro e Inácio do Rosário, Inácio de seu Onofre, Domingos Tabuleiro, Joaquim Lima, Valdinar Sessenta, Bitola, Sergipano, Raimundo Pinheiro, Antônio Pessoa, Rui e Jaime Marques, Teixeira, Capitão, Florêncio, Almir Matos, Argemiro Martins, Baril e Esmeraldo, Fradiquinho, Zé João e João de Deus, Carimbo, Lauro Mineiro, Leopoldo Veloso, Zé Miranda, Pera, Mestre Gálio, Simeão Sá, Marinheiro e Zé Pedro, Alvino Soares,Camilo Soares, Real, Antenorzinho, Zé Verdura, Arimatéia, Boaventura Moraes, Pedrainho, Juquinha, Paulo Bebeu, Januário de Experidião, Paulo e Inácio Castro, Dico Aroucha, Franco Castro, Elisabeto e Zé Costa, Celso Peixoto, Seu Cunha, Barnabé Sousa, Odin Leite, Tinche e Raimundinho, Dico Araujo, os irmãos Abreu Gigi e Ozório, Virgílio Diniz, Carrinho Pereira, Nezinho Soares, os irmãos Ary e Edmar, Zé Veloso, Odilon Soares, Wilson Marinho, Dico de Maroca, seu Tibúrcio,Waldir França, Edgar Cordeiro, Honório Ribeiro, Durval Martins, Raimundo Figurino, Raimundo de Lulu, Ciloca Beckman, dr. Bento, Dico Aroucha, Celso Peixoto,Teixeira, Deusdeti, Júlio Cesar, Ribamar e Palmerinho, Aymoré, Jurandy, Erasmo, Danulo, Jerônimo e Wilson Peixoto, Caetano Gato, Severiano, Ribamar Ferreira e vários alunos do Ginásio Pinheirense e dos Colégios de São Luis. Do interior, vindos de suas fazendas: Zé Grande, Pantim, Santico Guterres, Coló Leite, Tarquinio Souza, Ludgero Dias, Sizidino, Lauro Sodré, Simplício Câmara, Pedro Padre e filhos,além dos que chegavam de todos os cantos como Aurélio Corrêa, do Rio; José João Pereira, Evilásio, João Sessenta, João Amorim, Dr. Orlando Leite, Dr. Costa Rodrigues, Dr. Antenor Abreu, Dr. Estrela, de São Luis: Pedro Seguins de Bacabal; Dr. Zequinha Gomes, de Uberaba, Dr. Zequinha Abreu, de Belém,  e outros mais de vários lugares, como o Cel. Paiva e Zé Sousa. De Queimadas vinham os Weba e os Lobato; Antonio de Jovino de Ponta Branca, Zé Grande, Alexandre Guimarães, da Chapada; Benedito Bittencourt, de São João de Côrtes; Raimundo Bittencourt, do Engenho Queimado; Abílio Fernandes, Zequinha Guterres e Antenor Viegas, do Gama; de Pacas, Zerivan, Epaminondas e Gabriel; Ademar Peixoto do Pericumã, Carlos Pessoa, do Oiteiro de São Carlos, José Barros, os Castro de Santa Estela.
Os mais idosos ou católicos pouco praticantes esperaram em suas portas, janelas, terraços, como seu Américo, Antônio e Fradique Gonçalves e familiares, Ulisses Durans, André Pimenta,Chico Leite, Almir Soares, Edésio Alves,Carrinho Pimenta, Juca Marques, Deocleciano Moraes, Waldenor Moraes. Também os que estavam com visitantes, hospedados em suas casas, como Jeco Gomes, os Gonçalves, os Paiva, João Moreira, Zé Santos, Dr. Elisabeto, Artur Sá, seu Josias Abreu.
A cidade praticamente dobrava a sua população, pois a festa de Santo Inácio coincidia com o fim das férias e muitos pais vinham dos povoados trazendo de volta os seus filhos e também para as compras para os seus pequenos comércios, prestação de contas junto aos seus aviadores, consultas médicas. Quem não tinha parentes com quem hospedar-se ia para as pensões existentes na cidade como a de d. Loló Guterres, d. Carmen Lobato, seu Nobre e d. Joana Coruja.
Atrás do andor, os músicos integrantes de vários conjuntos, irmanados nesse dia em louvor ao santo Padroeiro, formando uma só orquestra: Julio Araujo no baixo tuba, Ernane Leite no saxofone, Chiquinho de Gino, Filipinho Pessoa e seu filho João, os irmãos Soares, Parmenas, Lourenço e Arlindo; Gaudêncio Pequapá, Luis de Iria e Solon Bastos.
Fechando o cortejo, distanciadas iam as prostitutas comandadas por Isabel, recatadas, balbuciando as suas orações.
Desviando-se dos buracos, pois nesse tempo as ruas ainda não eram asfaltadas, a procissão subiu a Rua Grande, passando pelo sobrado dos Padres, Patronato São Tarcísio, pela então Praça General Dutra, hoje José Sarney, convento das freiras, Praça do Centenário, dobrando na esquina onde ficava a loja de Saninho. De longe ouvia-se: “Zombam da fé os insensatos, erguem-se em vão contra o Senhor. Da nossa fé, ó Virgem, o brado abençoai. Queremos Deus que é nosso Rei. Queremos Deus que é nosso Pai”. Por onde passava, a procissão ia engrossando com o número de pessoas que a ela se incorporavam.
Serpenteando para livrar-se dos buracos e fojos, escondidos pelo capim não aparado, o cortejo passou na Praça do Cemitério, onde o Pe. Fernando fez uma parada estratégica, orando pelos mortos, rente ao Estádio Costa Rodrigues, Praça de São Benedito, pegou a Rua Floriano Peixoto, passando pela casa de Mundico Melo, Abílio Costa Ferreira, Manico Abreu e Dr. Helio Costa, o Cinema dos Gonçalves, o Cassino Pinheirense, contornou a Baixinha, dividindo-a ao passar pelo centenário angelinzeiro, seguiu passando pela casa de Antenor Corrêa e desceu pela Benjamin Constant. Na altura da casa de Fausta Reis, seu Severino e ZéPereira deixaram a procissão, nessas alturas uma multidão informe, sem a formação original, pois todos queriam chegar à frente dos demais para assegurar um bom lugar nos bancos da Matriz. A chegada da procissão foi saudada pelo toque festivo do sino tocado por ZéPereira e por uma salva de foguetes disparados por Severino.
Na praça, já esperavam pela volta do santo, seu Beco, Galdino Pimenta, Carrinho Corrêa, seu Adão,Pituca Gato, Pedro Sapo, recordando festas antigas, ainda com a imagem pequena de Santo Inácio e falando da falta que faziam os pinheirenses que já estavam num plano superior como Padre Newton, Saladino, Alberico e Pedro Durans, Mestre André, Seu Candinho, Experidião, Januca,Alcides Reis, Luiz Santeiro e outros que haviam se mudado para São Luis, como Celsa Castro, Baião, João Sessenta, Mário Castro, Laurindo Pereira, Erotildes e Maria Costa, Benedito Durans, Zuila Corrêa, esta para o Rio de Janeiro. Também ficaram várias senhoras sem condições para longas caminhadas e muitos moleques rodeando e provocando o boizinho amarrado no flamboyant, em frente à casa de Experidião e que seria a última e mais preciosa prenda do leilão. Nesse ano, o doador foi Pantim Guterres em pagamento pelo aumento do plantel do seu gado, por graça obtida através de Santo Inácio.
Após a chegada à Matriz houve a Bênção do Santíssimo da qual participaram os mais idosos, pois os jovens já estavam na Praça Pe. Newton em frente à Matriz e onde se realizaria o melhor dos festejos: o Arraial ou Largo que será rememorado na segunda parte destas nossas reminiscências.